25 de outubro de 2006

Ha' quase um ano


nesta terra, e uma das coisas que aprendi foi a valorizar tudo o que for feito de um modo mais ou menos artesanal; ou pelo menos tudo aquilo que não caiba no mais barato possível. Como o chão de linóleo castanho e a lâmpada de madeira falsa do meu studio, que tento cobrir a todo o custo, as portas de ombreiras grosseiras em metal, a tinta de plástico com que estes animais pintam tudo, sem tirar a que está por baixo primeiro, a comida reles, as bebidas e iogurtes e doces com xarope de milho em vez de açúcar, os edifícios, de habitação ou escritórios, feitos em massa, mal divididos, medíocres. Pensei nisto ao passear pela minha zona - desde a St John the Divine ao Colosseum (um prédio de luxo dos anos 10, de planta circular como uma secção do Coliseu de Roma) e senti-me privilegiado por morar no meio de tantos edificios Beaux-Arts. E lembrei-me de coisas como a Avenida dos Aliados e a Câmara do Porto, também Beaux-Arts até ao tutano e que toda a gente (incluindo eu) gozava na Escola - que porcaria sem jeito nenhum, pesados e massudos, com uns gajos de pedra a segurar a varanda à entrada, construídos fora do seu tempo, numa arquitectura só de fachadas, porque atrás são desordenados e feios. Chavões idiotas à parte, a verdade é que só passado quase um ano a trabalhar em arquitectura tradicional acordei para a vida, e a minha realidade cresceu exponencialmente. Agora quando passeio pela Nova Iorque fantástica do pré-Guerra, vejo milhares de coisas que antes ignorava - de tal modo que sonho intensamente com todo o tipo de ornamentos, painéis, molduras, estuques e madeiras. E depois acordo pobre na mesma e a olhar para as minhas paredinhas brancas e a minha lâmpada ranhosa, só o Sari na entrada da casa de banho é que salva a coisa.
Valha-nos a Avenida dos Aliados e a Câmara do Porto, e que se façam mais, fora ou dentro do tempo deles, quero lá saber. Só que daqui a uns anos não quero mais mediocridade.

1 comentário:

Cláudia Rocha Gonçalves disse...

no fundo, nós só nao quereos mediocridade. falta é definir mediocridade!